domingo, 2 de novembro de 2014

In Cucina: Torta de Bis com Doce de Leite



Para o primeiro post com o tema In Cucina nada melhor que um doce, não é?!

Não sou nenhuma chef mas amo me aventurar no mundo culinário. Por vezes não dá muito certo, porém, felizmente, a maioria das receitas acabam ficando gostosas. (Pelo menos é o que os cobaias falam!)

Vamos ao que interessa!

Torta de Bis com Doce de Leite



Ingredientes:
- 2 pacotes de bolacha negresco (se achar alguma com teor de cacau maior, fica mais gostoso!)
- 150 gr de manteiga com sal (não serve margarina)
- 1 lata de doce de leite (+/- 800 gr)
- 2 caixinhas de creme de leite
- 4 pacotes de bis (3 chocolate e 1 chocolate branco)
- 100 gr de nozes picadas


Primeiro de tudo faremos a base da torta com bolachinhas e manteiga: com uma espátula tire todo o recheio das bolachinhas (se gostar de gordura hidrogenada coma, senão joga fora mesmo hehehe), triture-as em um processador ou liquidificador até ficar uma farofinha fina. Derreta a manteiga e misture com a farofinha até ficar com a consistência de uma areia molhadinha (ou se apertar um punhadinho na mão, grudar tudo e ficar uma coisa só). Em uma forma, com fundo removível e forrada com papel manteiga (porque fica mais fácil de desenformar depois), vá assentando e alisando com uma colher, somente o fundo. Coloque na geladeira enquanto preparamos a massa.

Para a nossa massa vamos precisar misturar o doce de leite com o creme de leite (com soro mesmo), no começo parece que não vai dar certo, mas tenha fé, vai dar certo! Mexa até ficar homogêneo, você vai ver que como tempo vai ficar fácil de mexer. Recomendo usar um fouet, a não ser que tenhas um garfo com cabo longo. Depois de misturar bem, é só picar duas caixinhas de bis e colocar na mistura, se for do seu gosto pode deixar uns pedacinhos maiores. Para picar é só apertar nos dedos o bis, como é delicado ele quebrará facilmente.

A montagem é bem simples: com a base já na forma é só dispor alternadamente os bis na lateral da forma. Dica: coloque a parte de cima do bis para fora, assim fica mais bonitinho quando desenformar. Preencha com a massa. Coloque um plástico filme para levarmos ao freezer, é importante que o plástico esteja em contato com a massa, senão formará uma crostinha, eu passei outro por cima para proteger os bis. Seria interessante fazer a torta na noite anterior, pois quanto mais tempo ficar no freezer melhor na hora de cortá-la.

Depois de no mínimo 4 horas no freezer é só desenformar, colocar as nozes picadas por cima e voilà! A nossa torta de bis com doce de leite. :) 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Então eu li: As Crônicas de Gelo e Fogo.

Winter is coming.

Bem, depois de ler os cinco livros, já publicados, da saga do George Martin, impossível não pensar no lema dos Stark. E ter certeza que eles têm razão.

Essa semana terminei de ler o quinto livro, A Dança dos Dragões, e como muitos leitores estou assimilando ainda todas as coisas que aconteceram.

Eu ganhei o primeiro livro ainda em 2010, naquela época eu não tinha ouvido sequer rumores sobre a HBO lançar um seriado baseado nos livros. Lembro que quando vi o A Guerra dos Tronos fiquei encantada com a capa, li a sinopse atrás do livro, e fiquei pensando: "deve ser maravilhoso, mesmo um pouco grande vou ler rapidinho!". Oh quem me dera! Quando comecei a ler não consegui passar das quatro folhas do prólogo ahahahah. Confuso, difícil de gravar os nomes, um pouco cansativo, tinha que voltar para ler novamente, um fracasso. Acabei por deixar de lado pensando que um dia eu pegaria de novo para ler.

Quando saiu a série da HBO achei maravilhoso. Depois de ver a primeira temporada logo peguei o livro para ler, mas deixei de lado novamente. Dessa vez foi por falta de vontade (pelo menos terminei o prólogo!). Acabei vendo as quatro temporadas e então, esse ano, criei vergonha e fui ler os livros. Sem dúvidas foi infinitamente mais fácil para similar todos os personagens, eu pude dar cara aos nomes.

Existem pessoas que não acham a menor graça ler um livro já sabendo o desfecho, se isso é o normal, então eu faço parte do outro grupo. Não resisto a um spoiler. Não me importo nem um pouco de saber o que vai acontecer antecipadamente, isso, por incrível que pareça, me dá mais ânimo para ler, para saber como tal coisa aconteceu. Saber os detalhes. Os três primeiros livros - A Guerra dos Tronos, A Fúria dos Reis A Tormenta de Espadas - foram os mais rápidos para ler, principalmente o terceiro, o mais frenético na minha opinião e também na de muitos leitores, pelo que andei vasculhando por aí. O quarto, O Festim de Corvos, e o quinto, A Dança dos Dragões, ambos uma leitura mais lenta. Muitas pessoas acharam o quarto livro muito chato, eu sinceramente não compartilho essa opinião. É sim uma leitura mais lenta, alguns capítulos foram sonolentos, mas não chatos, da mesma forma até a metade do quinto livro, a partir daí as coisas começam a acontecer rapidamente.

O sentimento que eu tive quando terminei o quinto livro foi de desespero: "preciso saber o final!". E quando lembrei que não existe data precisa para o lançamento do sexto e sétimo livros, - Os Ventos de Inverno Um sonho de Primavera - o desespero foi maior. Por enquanto tenho que me contentar com O cavaleiro dos Sete Reinos, que é um conto ambientado em Westeros, nos anos que antecedem a Guerra dos Tronos

No que diz respeito a publicação editorial: Não é de hoje que existe uma reclamação imensa sobre as editoras brasileiras, principalmente quando comparadas com as editoras estrangeiras. Os livros tem folhas de boa qualidade, não são aquelas brancas que te cegam. As letras são muito pequenas e apertadas. Os desenhos das capas são lindos, porém o acabamento é muito medíocre para os valores  cobrados no lançamento e até um bom tempo depois. Hoje você encontra promoção em tudo quanto é site, mas por favor, custa oferecer um produto melhor? Um pouco mais caprichado? Uma capa dura para começar. Enfim, essa é uma das coisas que duvido muito que vai mudar nesse Brasilzinho.

No que diz respeito a forma de escrita: Eu estava divagando sobre a forma de escrita do Martin, comparando com o Tolkien, visto que o próprio Martin se declarou fã do professor. Coisas óbvias podem ser vistas como o detalhismo e o fantástico. Dragões, wargs, os outros, sonhos verdes. Apesar dessas coisas serem classificadas como pertencentes a literatura fantástica, a escrita de Martin é muito realista, quando olhamos para o regime monárquico, costumes, cultura, família, finanças. Isso me faz pensar quase em algo 'normal' ter um dragão voando. Essa é a beleza de um livro bem escrito, bem articulado.

Conforme eu ia avançando para o final do quinto livro, todas as tramas iam se costurando de maneira coesa e coerente. Quando fui percebendo que todas as histórias estavam rumando para um único lado fiquei extremamente intrigada em saber como o Martin vai se sair dessa. É o tipo de coisa que te faz pensar: "o que será que fez ele imaginar tudo isso? O que ele estava fazendo quando isso veio em sua mente?".

Certamente eu tenho meus personagens favoritos, na verdade o meu favorito já morreu! Está aí uma das coisas que eu ainda não decidi, qual autor é o que mais me fez raiva, nesse quesito: o Martin ou o Kirkman nas suas HQ's do The Walking Dead.

Bem, para os leitores que terminaram todos os livros e estão ansiosos aguardando o próximo o que resta, além do seriado, é especular o que vai/pode acontecer. Isso quer dizer TEORIAS! (Para que não leu os livros, não viu o seriado, tem interesse de ler e ver e não curte saber as coisas antecipadamente como eu, aviso que terá spoilers a partir daqui. Então, aquela velha história: estás avisado.)
  
Andei pesquisando por aí as teorias que já surgiram levando em consideração, obviamente, a análise dos livros, juntando partes, as profecias da Daenerys e do seu dragão de três cabeças... De todas as que li e ouvi tem duas que me parecem mais lógicas.

A primeira: o Jon é uma das cabeças do dragão, já que a Dany não pode montar mais de um dragão (segundo a história das famílias dragões) e ligando com o próprio nome do livro As crônicas de Gelo e Fogo. Visivelmente o Jon é um Stark, pois a descrição dele diz ele ser parecidíssimo com o Eddard, apesar de a teoria dizer que ele não é filho do Eddard e sim da sua irmã Lyanna com alguém que tem sangue Targaryen. Nesse ponto temos dois possíveis pais: o Robert Baratheon e o Rhaegar Targaryen, ambos apaixonados pela loba, o primeiro ia se casar com ela e o segundo a raptou. Outra teoria que fala do Jon é que ele seria o Azor Ahai renascido, visto que a Melissandre o viu no fogo ele sendo "homem, depois lobo, depois homem de novo", ou seja, depois de ser apunhalado, ele entra na pele do Fantasta e vive nele por um tempo, até seu corpo humano ser ressuscitado e ele poder voltar para ele.

A segunda, o que complementa a primeira também, é que a outra cabeça da Dany seria o Tyrion. Confesso que fiquei meio descrente, mas depois juntando os pedaços fez muito sentido. Tyrion seria meio leão e meio dragão. No livro lemos trechos que nos leva a crer que de alguma maneira Tyrion tem sangue de dragão, pois como só os Targaryen conseguem/podem, ele sonha com dragões e nunca fica doente. O que me leva a pensar que ele seria filho de Joanna Lannister com provavelmente o rei louco Aerys II, o qual tinha um certo desejo pela mulher do Tywin.

Além dessas teorias que mais me convenceram, tem um terceiro candidato: o possível sobrinho da Dany que não morreu, Aegon - antes conhecido como Jovem Griff. Todas as coisas me levam a crer que ele não é um impostor, como algumas teorias dizem. Ainda mais porque o Varys, a.k.a Aranha, está envolvido. Mas... só o Martin nos dirá.


E vocês, já leram? Quais teorias mais convenceram?


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Tolkien para crianças

Hoje um post bem light!

Há sempre quem me pergunte: "Tolkien escreveu para crianças?". Sim! E por sinal seus livros são fantásticos, em todos os significados da palavra.
Sem  dúvidas Tolkien é mais conhecido atualmente pelas suas obras relacionadas a Terra Média, sobretudo as obras que viraram filmes nas mãos de Peter Jackson: O Senhor dos Anéis e O Hobbit. Este último apesar de chamar mais atenção de jovens e adultos também foi criado para literatura infanto-juvenil.

O livro infantil que mais me encantou foi o Mr Bliss:


 Edição em português de 2012 pela VMF Martins Fontes.

Publicado originalmente em 1982 em inglês.

O livro é uma fábula ilustrada que conta a história do senhor Bliss, ele "é conhecido por seus chapéus extremamente altos e por seu animal de estimação: um giracoelho. Um dia ele toma a decisão estapafúrdia de comprar um automóvel. Mas sua primeira saída para visitar alguns amigos logo se transforma numa sucessão de desastres. Alguns desses incidentes talvez sejam causados pelo jeito de dirigir do sr. Bliss, mas nem ele poderia prever que seria abordado por três ursos..."  (verso da capa).

Uma curiosidade sobre a história é que em 1932, a família Tolkien comprou um automóvel, o mesmo foi cahamdo de Joe Old, pego da placa JO 9184, e daquele momento em diante iniciou as aventuras que posteriormente foram transcritas em Sr. Bliss.


Sem dúvidas o que mais me encantou nesse livro (e certamente será um dos primeiros que lerei aos meus filhos) é o fato de a edição ser exatamente como o Tolkien fez: cheia de desenhos e escrita a mão. Sim!!! Ao lado do  texto traduzido tem o fac-símile do manuscrito original. Com os desenhos bem coloridos e a letra cursiva inconfundível do Tolkien.



Assim como outras publicações do Tolkien, a história foi criada e contada originalmente para seus filhos, na época, pequenos. Me atrevo a dizer que essas histórias encantam mais adultos do que crianças (faço parte desse grupo de adultos, confesso!). Como apreciadora das obras do professor, é encantador ver os ricos detalhes dos desenhos e a linguagem utilizada para explicá-los, encaixando com a história.

Outras histórias  não relacionadas a Terra  Média, que foram criadas inicialmente para seus filhos e já foram publicadas em português, também pela Martins Fontes são: Roverandom e Mestre Gil de Ham. 

Se você se encantou pelos desenhos, você encontrará muitos outros em "Cartas do Papai Noel". Neste livro foram publicadas inúmeras cartas escritas "pelo" Papai Noel às crianças Tolkien, de 1920 à 1943. Todo final de ano chegava uma cartinha com selo do polo norte com ilustrações e histórias extraordinárias.

Vale a pena conferir cada livrinho desses!

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

"Mas essa legenda está errada!" (2)

Para encerrar o post anterior sobre as traduções de legendas, falarei um pouquinho sobre a legibilidade textual e darei alguns exemplos de legendas traduzidas, estes exemplos foram tirados de um trabalho que eu fiz. Futuramente retorno sobre este assunto, pois sem dúvidas tem muitos outros aspectos que podem ser analisados, como a diferença das traduções para dublagem e legendagem, bem como outros pontos de vista da legendagem.



Assim como em qualquer texto traduzido a legibilidade também é importante nas legendas e o trabalho do tradutor deve ser minucioso como em qualquer outro texto. Uma tradução mal feita pode colocar em risco a legibilidade e todo o trabalho do tradutor. A língua falada sendo mais espontânea e atingindo a linguística em sua totalidade, abrange diversos fatores: o regionalismo, o cultural, o contextual, o profissional e o natural[1], esses fatores muitas vezes podem dificultar a tradução por conta da diferença cultural e temporal entre a língua de origem e a língua de chegada.

Para alguns a tradução para legendagem é considera uma simples adaptação que mantém o significado principal do original, já que não é possível alcançar um nível alto de fidelidade do texto original[2], principalmente quando o filme é antigo e sua legendagem é feita muitos anos depois, essa diferença vem de encontro com o que diz Faveri (2008):

Da mesma maneira que o historiador deve buscar esse momento de legibilidade histórica, sintetizado na imagem, o tradutor é aquele que busca o momento da traduzibilidade de um texto. Como historiador, ele deve executar uma atualização. O que faz o tradutor é possibilitar uma sobrevida do original, já que o recria.

Além disso não pode-se esquecer de que a tradução obrigatoriamente deve estar dentro das normas, por exemplo, se a cultura da língua de origem tem o costume de falar longas frases em pouco tempo, e na língua escrita de chegada, as frases continuarem demasiado longas, a mesma não pode ser traduzida literalmente, ela terá de ser editada. Vê-se essa situação no exemplo, onde LO é a língua de origem (italiano), LT é a língua traduzida e por último a legenda finalizada. Estes exemplos foram tirados do filme Imputazione di omicidio per uno studente (1972), minuto 5’22’’:

LO

-Il partito che ti ha detto che gli studenti hanno la rogna?
-, non ce l'hanno la rogna, ma vi grattate troppo.

LT

-O partido que disse a você que os estudantes tem sarna?
-Bem, vocês não têm sarna, mas vocês coçam muito.

Legenda

-Foi o partido que disse que temos sarna?
-Vocês coçam muito.


Neste exemplo tem-se a edição por conta das limitações tempo e espaço. A legenda manteve o sentido original da fala porém teve um corte considerável de carácteres.

A grande parte desses cortes somente são possíveis por conta das ferramentas que a legendagem possui: som e imagem. Essas ferramentas além de ajudar a tradução para a adaptação nas legendas, ajudam a elevar o nível de legibilidade no texto traduzido.

Quando um filme usa uma linguagem que já não é mais usada atualmente, com o auxílio da imagem, é mais fácil fazer uma adaptação linguística e manter um registro alto na tradução, pois a probabilidade do telespectador entender o que lê é muito mais alta do que se tivesse lendo um livro – sempre considerando que o telespectador já tenha um certo conhecimento cultural prévio. O fato dele ver uma pessoa com roupas de época falando “vosmecê”, o faz compreender mais rapidamente o que está acontecendo. Da mesma maneira uma cena em que um grupo de jovens, vestidos com determinadas roupas características, falando gírias, faz com que o telespectador rapidamente compreenda o que está acontecendo e contextualiza-o temporalmente.

Em Imputazione di omicidio per uno studente temos várias imagens que auxiliam as falas na contextualização temporal, já no início do filme temos uma indicação do contexto político no enredo, sendo um filme de 1972, época em que a Itália passava por tempos difíceis politicamente, todos as personagens caminham em confronto com a polícia com um pano vermelho amarrado ao corpo, cor símbolo do partido comunista; na sequência no minuto 20’ temos auxilio de outra ferramenta, o som, onde é entoada uma canção de liberdade; na imagem abaixo, temos uma sequência de cenas onde mostram também, vários símbolos do comunismo, o que auxilia o telespectador a contextualizar-se nos diálogos. Mesmo porque conforme a afirmativa de Bravo (2006) 
na cinematografia a palavra está subordinada à imagem, pelo que, na tradução audiovisual, todo o trabalho do tradutor é mediatizado pela imagem e esta subordinação do elemento verbal ao icônico constitui um problema para o tradutor, o que explica que um dos axiomas da tradução audiovisual consista em que deve traduzir-se a partir do ecrã (não a partir do guião).



Retomando a questão cultural e temporal, no exemplo, minuto 86’03’’, tem-se uma expressão idiomática:

LO

-Fabio, dammi retta, vattene...

Legenda

-Fabio, escute-me, vai embora...


A expressão /dammi retta/ traduzida literalmente seria a equivalência de /dê-me linha reta/, a mesma foi traduzida como /escute-me/. Essa expressão é falada ainda nos dias de hoje na Itália. O exemplo mostra a necessidade do conhecimento cultural do tradutor, bem como temporal, visto que a língua está em constante e eterna mudança.

Outro ponto importante a exemplificar é a questão da faixa etária do filme que influencia na tradução, no exemplo, minuto 85’16’’:

LO

-Un figlio di puttana

Legenda

-Um bastardo


Neste exemplo a palavra de baixo calão /figlio di puttana/, foi abrandada visto que a classificação do filme no Brasil é de 16 anos. Mesmo a classificação permitindo um palavreado com um nível mais baixo, foi escolhido não usar o mesmo nível, já que é a única vez que ocorre no filme. A escolha da tradução pela palavra /bastardo/ foi motivada pela carga de significado que ela carrega, apesar de não ser explícita o seu significado tem um peso tão grande quanto o palavrão em italiano.

Sabe-se também que muitos tradutores usam em seus textos, literários e poéticos, a clareza e a obscuridade, muitas vezes conseguem usar os dois, outras vezes optam por um ou outro, erram e acertam nas suas escolhas, todas as duas são extremamente necessárias, conforme o que o texto requer. Baldini (2004) fala que 

è nostra convinzione che abbiamo bisogno tanto della chiarezza quanto dell’oscurità. Vi sono, infatti, ambiti linguistici in cui si può e si deve essere chiari ed altri in cui non si può essere chiari o non ambigui, in quanto è nell’oscurità e nella vaghezza che sta tutta la loro forza, la loro attrattiva e il loro fascino. [é da nossa convicção que temos a necessidade tanto da clareza quando da obscuridade. Têm, de fato, âmbitos linguísticos os quais podem-se e devem-se ser claros e outros os quais não podem  ser claros ou não ambíguos, na obscuridade, no entanto, é na vagueza que está toda a sua foça, a sua atração e o seu fascínio.(tradução nossa)]

Analisando criticamente a função da legenda podemos afirmar que a mesma deve ser clara em todo o momento, visto que tem como função passar o significado daquilo que está sendo falado, mantendo-se o máximo possível fiel ao texto original. Mesmo se o tradutor deve usar de clareza com a legenda, não significa que o filme não pode ter obscuridade, já que as legendas não são as únicas formas de expressão do longa-metragem.

Os easter eggs e o aspecto gestual do filme são as partes obscuras, quando o telespectador não tem um conhecimento prévio sobre a história fica ainda mais intenso. Em Imputazione os easter eggs aparecem para auxiliar os cortes e falas na contextualização temporal e cultural, como no exemplo da imagem, onde aparecem ao fundo nas paredes do local a foice e o martelo, símbolos da bandeira comunista, e o personagem histórico Che Guevara, ícone do comunismo. Esses easter eggs servem para que o espectador saiba que o personagem encontra-se em uma sala comunista sem que tenha sido dito isso a ele. 

Já os aspectos gestuais servem muitas vezes como argumentação na falta da linguagem falada. Em cenas como no minuto 89’12’’, sabemos que o Juiz Sola está pensativo, ponderando a respeito do que fazer com a confissão de assassinato do seu filho Fabio. Nessa hora nenhuma fala é necessária, a expressão facial, a trilha sonora, e obviamente o desenrolar do enredo argumentam por si só. Outro exemplo está no minuto 96’20’’ quando a arma do crime é jogada no rio Tevere, ali não é necessária nenhuma explicação das consequências que esse gesto terá e o que o motivou, o amor de um pai pelo filho e a tentativa de compreensão das causas desse filho.


No que se refere então as normas técnicas da legendagem, até que ponto elas influenciam nas escolhas lexicais e construções sintáticas do tradutor? Muitas vezes o tradutor é obrigado a fazer uma explicitação ou implicitação e principalmente omissão, – modalidades de tradução segundo Aubert (1998) – e isso acarreta críticas pesadas, inclusive de que o mesmo não fez uma tradução boa. Porém, as palavras de Calvino (2002) sobre traduções literárias também servem para as traduções de legendas, onde
la critica prende l’abitudine di stroncare una versione in due righe, senza rendersi conto di come sono stati risolti i passaggi più difficili e le caratteristiche dello stile, senza domandarsi se c’erano altre soluzioni e quali, allora è meglio non farne niente. [a crítica tem o hábito de restringir uma versão em duas linhas, sem dar-se conta de como foram resolvidos as passagens mais difíceis e as características do estilo, sem perguntar-se se tinham outras soluções e quais, então é melhor não fazer nada (tradução nossa)]

Portanto, as normas técnicas da legendagem dificultam sim o tradutor a manter uma alta legibilidade e uma sincronização perfeita, sem uma tradução literal. No entanto, em contrapartida, o tradutor conta com o auxílio da imagem e do som, o que muitas vezes faz com que tudo seja facilitado para a edição das legendas. Sem dúvidas é de extrema importância salientar a necessidade de que o tradutor tenha um alto nível de conhecimento, tanto da LO quanto da LT, para que ele saiba equilibrar os cortes e ajustes da legenda sem que tenha uma perda do alto nível de compreensão linguística e do significado principal do original.


***


Referencias:

ARROJO, R. O ensino da tradução e seus limites: por uma abordagem menos ilusória. In: ______________. O signo desconstruído. Implicações para a tradução, a leitura e o ensino. Campinas, SP: Fontes, 1992. P. 99-105.
AUBERT, F. H. Modalidades de tradução: teorias e resultados. TradTerm, São Paulo, v. 5. N. 1, p.99-128, 1998.
AZENHA, J.J, Tradução e função. In: Tradução técnica e condicionantes culturais:  primeiros passos para um estudo integrado. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP, 1999. p. 33-41.
BALDINI, M. Introduzione. In: Elogio dell’oscurità e dela chiarezza.  Roma: Armando Editore, 2004. p. 9 -  14.
BASTIANETTO, P. As funções do paratexto para a inteligibilidade da obra traduzida. São Paulo: TradTerm, v 11, 2005. p. 53-69.
BRAVO, José María. O processo da tradução da legendagem de produtos audiovisuais, in Revista Digital Sobre Tradução: Universidad de Vallaidolid, 2006, n. 9. Disponível em: <http://cvc.instituto-camoes.pt/olingua/09/imprimir02.html>. 
BERMAN, A. A tradução e a letra ou o albergue do longínquo. 7letras, Rio de Janeiro, 2007.
CALVINO, I. Sul tradurre. In: Mondo scritto e mondo non scrito. Milano: A. Mondadori Editore, 2002. p. 47-59.
CARVALHO, Carolina A. de. A tradução para legendas: dos polissistemas à singularidade do tradutor. Rio de Janeiro. 2005. Tese de mestrado (Estudos da Linguagem). Faculdade de Letras - Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
DÍAZ CINTAS, J. e REMAEL. A. Audiovisual Translation:  Subtitling. Manchester: St Jerome. 2007.
FAVERI, C.B. O problema da temporalidade em tradução. In: Literatura traduzida e literatura nacional. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008. p.113-118.
FULGÊNCIO, L. e LIBERATO, Y.G. Como facilitar a leitura. 3. Ed. São Paulo: Contexto. 2000.
JAKOBSON, Roman. Aspectos linguísticos da tradução. Trad. Izidoro Blikstein. In: ______________. Linguística e Comunicação. São Paulo: Cultrix, 1995, p.63-86.
Língua falada e Língua escrita. Disponível em: < http://www.soportugues.com.br/secoes/seman/seman3.php >. 
LOCATELLI PIVA, K. Traduzione per sottotitolaggio in “TV Buona Maestra” – La lezione di Alberto Manzi. Florianópolis, 2011. Trabalho de Conclusão de Curso. Centro de Comunicação e Expressão, Departamento de Língua e Literatura Estrangeira – Universidade Federal de Santa Catarina.
ORTOLEVA, P., REVELLI, M. Storia dell'età contemporanea: il mondo attuale dal 1973 ai giorni nostri. Milano: Mondadori, 1992.
PERINI, M.A. Efeito do gênero textual. In: FULGÊNCIO, L.; LIBERATO, Y. É possível facilitar a leitura. Um guia para escrever claro. São Paulo: Contexto, 2007. p. 149-158.
XIMENES, Sergio. Minidicionário Ediouro da Língua Portuguesa. 2ª Edição reform. São Paulo: Ediouro, 2000.

 Filmografia: 
Imputazione di omicidio per uno studente. Direção: Mauro Bolognini. Itália, Titanus - CD Videosuono, 1972, 105’, son., color. Drama.


[1] Veja Língua falada e língua escrita.
[2]  Veja Díaz Cintas & Remael, 2007, p27.




quarta-feira, 20 de agosto de 2014

"Mas essa legenda está errada!"

Batman: The dark knight rises, 2012
"Mas ele não disse isso!"

"Essa legenda está errada, está faltando um monte de coisas!"

"Ele falou isso com outras palavras."

Quantas vezes você não pensou isso vendo um filme legendado?

Muitas vezes quando eu via filmes em italiano com legendas em português me retorcia no sofá, me irritava com aquelas legendas "erradas", "mal feitas", "comendo pedaços", "com traduções equivocadas". No começo via legendado porque eu não tinha domínio suficiente da língua e poderia perder algum diálogo importante, depois era só para ver se o tradutor fez um bom trabalho.

Além de literatura, sempre amei cinema. Ainda mais quando eram adaptações de livros que eu gostava (outra coisa que me irritava profundamente, roteiros. Mas isso vai render outro post!). Quando iniciei meu curso na Universidade, em Letras, logo me apaixonei por tradução, sempre fui convicta que deveria seguir o caminho do bacharelado ao invés de licenciatura, pois me proporcionaria mais disciplinas em Estudos da Tradução. Eis que a minha crítica com as legendas iniciaram!

Até o dia que eu tive a grande oportunidade de fazer um curso de Legendagem. Enfim eu ia juntar duas coisas que sempre gostei: tradução e filmes.

Mordi minha língua.

É gente, não sei o que foi mais difícil, traduzir para legendagem ou fazer as legendas. "Mas que besteira, é fácil, só traduzir o que ele falou e colocar lá no programinha para aparecer a legenda na hora que ele falar". É, o caminho é mais ou menos esse. Mas tem umas pedras no meio do caminho.

Gostaria de compartilhar algumas experiências que tive com as traduções para legendagem, algumas coisas que aprendi. Vou dividir em duas partes, porque colocar tudo em um post ficaria muito longo. Claro que não vou dar aulas sobre isso (até porque não tenho tannnto conhecimento para tal), só algumas noções de como funciona a legendagem na visão de um tradutor. Quem sabe, se você é um daqueles críticos como eu fui um dia, não tenha um pouco mais de compaixão pelos tradutores. Hehehe. Não que eu deixei de ser chata, mas agora eu tenho noção de como o trabalho é suado.

Bem, antes de tudo é preciso entender que existem normas técnicas de legendagem. Existem as normas européia e a brasileira, a diferença é mínima e hoje em dia muitas empresas de legendagem adotam as normas européia. Quando fala-se em legendas pode-se pensar em várias definições para esse termo, como por exemplo: legendas podem ser pequenos textos descritivos abaixo de imagens ou ilustrações, podem ser dizeres ou letreiros, entre outras definições. No nosso caso a definição que se encaixa perfeitamente, segundo o dicionário, é a de que legendas são “textos apostos à parte inferior de um filme de cinema ou de TV, com a tradução das falas dos personagens”.

A legendagem começou no início de 1900, com os filmes mudos, eram conhecidas como intertitles. A diferença dos posteriores subtitles é justamente o que o nome já define, elas eram expostas entre às imagens e não sobre a imagem, como conhecemos atualmente. Ainda hoje com o avanço dos estudos, a legendagem é adaptada para deficientes auditivos, sendo acrescentadas caracteres e marcações especificas sinalizando, por exemplo, um telefone tocando ou uma trilha sonora mais intensa ou tranquila, também surgiu a áudio-descrição como auxilio para deficientes visuais. Com o passar do tempo a evolução da legendagem não trouxe apenas a facilidade da criação delas, com programas gratuitos (como o Subtitle Edit, o que eu uso muito, e o Subtitle Workshop), muito utilizados pelas fanfics e a ampliação do mercado de exportação, mas também, junto ao cinema sonoro veio a possibilidade da dublagem e as legendas em vários idiomas, entretanto trouxe vários problemas linguísticos e culturais, tema de muitos estudos relacionados a área da tradução.

Tais problemas linguísticos e culturais muitas vezes aparecem por conta das normas técnicas da legendagem. Resumidamente, além da sincronização da legenda com a fala do personagem, as normas restringem o tempo e o espaço das legendas, no Brasil a legenda pode aparecer na tela entre 1 e 4 segundos, com no máximo 64 caracteres, 32 caracteres por linha, no máximo duas linhas. Alguns casos são aceitáveis utilizar as normas europeias, onde a legenda pode aparecer na tela entre 1 e 6 segundos, com no máximo 72 caracteres, 36 caracteres por linha, no máximo duas linhas. Isso depende dos requisitos da empresa responsável pela tradução das legendas.

Além de respeitar as normas, a tradução deve ter, claramente, o mínimo de legibilidade possível. Entendo como legibilidade a explicação das professoras Lúcia Fulgêncio e Yara Liberato, onde a legibilidade é “uma interação entre o leitor e o texto ou, mais especificamente, entre o conhecimento prévio do leitor e a informação que ele capta do texto”. Levando em consideração essa afirmativa os pontos levantados em relação ao texto traduzido na legendagem englobam questões de que existe uma facilidade maior na compreensão do texto, visto que o som e a imagem estão sempre caminhando lado a lado com a legenda; como a língua falada influencia na tradução e até que ponto a legibilidade é afetada pelas normas técnicas da legendagem. 

No próximo post vou colocar exemplos de algumas legendas que traduzi e assim explicar um pouco mais sobre esse ponto da legibilidade textual na tradução de legendas. Até lá!

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Cortejamento: O Silmarillion x Bíblia

Olá!

Quem me conhece um pouquinho sabe bem o quanto aprecio as obras de Tolkien. Nesse último ano tive o prazer de conhecer outras obras não relacionadas ao imaginarium da Terra Média. Confesso que no início tinha um pouco de receio, mas logo fiquei maravilhada! Quem sabe comento sobre alguns aqui.

Alguns muitos anos atrás fiz um trabalho em uma disciplina de Literatura na faculdade. Neste trabalho tratei sobre uma das obras que mais aprecio e considero complexa. Fiz um breve cortejamento entre O Silmarillion de J.R.R. Tolkien e a Bíblia, sobretudo o Antigo Testamento, também citei C.S. Lewis. Neste cortejamento poderemos ver claramente, além da incrível imaginação, os princípios Cristãos do autor em suas obras que são aclamadas até os dias de hoje. Entre todas as obras de Tolkien, a meu ver, sua fé é mais clara nesta.

Quando falo breve, é breve mesmo! Peguei apenas a primeira parte do Silmarillion e fiz um belo resumão. Entretanto, espero que apreciem e sintam vontade de conhecer um pouco mais sobre este escritor fantástico.



Fingolfin vs Sauron


No princípio, criou Deus os céus e a terra
                                                                      Gênesis 1:1

Igualmente foi a criação de Arda, conhecida também como Terra Média.

Quem lê pela primeira vez O Silmarillion não deixa de ver a sua grande semelhança com a Bíblia, até mesmo quem nunca leu a Bíblia mas conhece um pouco do Cristianismo irá relacionar com a obra; aqui vemos um caso em que a vida do autor se entrelaça com sua obra. Tolkien, que foi criado com princípios cristãos, deixou a marca de sua fé da primeira à última página de O Silmarillion.
Ao falar de Tolkien, o pensamento logo se remete a sua grande criatividade e imaginação, filólogo, professor de Oxford, começou a escrever as obras, que no futuro tornariam sua marca registrada, quando servia ao exército inglês na primeira Guerra Mundial. Apesar do trabalho árduo Tolkien faleceu e não conseguiu terminar de escrever O Silmarillion, entre outras obras, o livro que conta o começo de tudo e de todos.
Assim como Tolkien, seu amigo pessoal C.S. Lewis deixou transparecer "descaradamente" o Cristianismo em suas obras, cito a mais famosa: As Crônicas de Nárnia. Nela podemos ver a semelhança com O Silmarillion no primeiro de sete livros (em ordem cronológica na saga) - O Sobrinho do mago - onde Lewis relata a criação do seu mundo, Nárnia. O criador é o leão Aslam, que da mesma forma como acontece com Arda, cria Nárnia através de canções:

No escuro, finalmente, alguma coisa começava a acontecer. Uma voz cantava.[...]O canto não tinha palavras. Nem chegava a ser um canto. De qualquer forma, era o mais belo som que ele já ouvira. Tão bonito que chegava a ser quase insuportável.[...]
Um momento antes, nada havia lá em cima, só a escuridão; num segundo, milhares e milhares de pontos de luz saltaram, estrelas isoladas, constelações, planetas, muito mais reluzentes e maiores que em nosso mundo.[1]

Muitas pessoas acreditam que Deus criou o mundo não simplesmente falando, mas sim com lindas melodias, cantando. Podemos ver que não só Lewis, mas Tolkien também talvez pensasse assim. Ilúvatar criou Arda através das músicas feitas pelos Ainurs para a glória de seu nome e inspiradas por ele. Os Ainurs seriam a equivalência dos Arcanjos do Cristianismo, que são de uma classe de anjos superiores. Entre estes Ainurs existia um com mais poderes que os outros: Melkor; o qual começou a semear em seu coração a vontade de ser superior ao seu Deus, a ter ambições e invejas, este indiscutivelmente seria a equivalência de Lúcifer. Igualmente como aconteceu com Melkor, ele caiu em desgraça e foi amaldiçoado levando consigo uma parte dos anjos. Mais tarde Melkor seria conhecido por outro nome: Morgoth, "o sinistro inimigo do mundo", da mesma maneira, Lúcifer não é chamado por seu antigo nome, mas com outro.
Como diz Lord Acton[2]: “o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Depois de Morgoth refugiar-se querendo "crescer" e aumentar seus poderes,  corrompendo-se cada dia mais, não seria estranho que Tolkien escrevendo durante os períodos de Guerras não visse isso ao seu redor, os "maiores" com seus corações corrompidos e se corrompendo a cada dia com sede de poder,  "nações que se levantam contra nações, reinos contra reinos"[3], os princípios das dores, tanto na Terra como em Arda.
Ilúvatar não queria ver seus primogênitos sofrerem, assim como qualquer pai não gostaria de ver seu filho sofrer, portanto Ilúvatar manda um dos Valar (Ainur que desceu para Arda) guiar seus filhos, os elfos, até a Terra Prometida: Valinor, as terras imortais. Essa parte da história encaixa-se perfeitamente com a história de Moisés, o qual tirou o povo do Egito, do sofrimento, e em certa parte da jornada a caminho da terra prometida tiveram que atravessar o Mar Vermelho com ajuda divina[4]. Os elfos tiveram uma longa caminhada precisando atravessar o grande mar para poder chegar no Oeste, nas terras eternas.
Assim como Tolkien relatou a ida dos elfos a Valinor, ao paraíso, também relatou, mais tarde, o exílio dos elfos, conhecidos então como Noldors, pelo fato da desobediência, a mesma muito falada na Bíblia, nos Evangelhos.  Lembremos então de Adão e Eva, que desobedeceram a Deus quando comeram do fruto proibido, com isso foram expulsos do paraíso, neste caso, o paraíso não é o Éden, mas Valinor. Também devemos lembrar o motivo da desobediência de Adão e Eva, que foram seduzidos pela serpente, pelo diabo, assim os elfos foram enganados por Morgoth, Melkor.
Tolkien não foi só "fiel" com o Antigo Testamento, mas também ao Novo Testamento, sobretudo ao livro de Apocalipse. Melkor é acorrentado na Prisão de Mandos, que situa-se em Valinor, onde é imposto o tempo de Três Eras, para então poder ter um novo julgamento; em Apocalipse 20:2 e 3, fala que satanás ficaria preso por mil anos e depois solto. Melkor, passado o tempo imposto a ele, humilhou-se e pediu perdão, então pergunta-se: como Tolkien foi "fiel"? Bem, um coração corrompido a tal ponto jamais arrepende-se com sinceridade, satanás é o pai da mentira, e Melkor não fica distante de ser também:

[...]Ele foi conduzido novamente diante dos tronos dos Valar. Contemplou então sua glória e sua bem-aventurança; e a inveja encheu seu coração. Viu os filhos de Ilúvatar sentados aos pés dos Poderosos, e o ódio o dominou. Observou a abundancia de pedras preciosas, e as cobiçou. Ocultou, porém, seus pensamentos e adiou sua vingança.[5]

Muitos foram seduzidos pela mentira, muitos são seduzidos e enganados pelas mentiras. Este também foi um tema que Lewis abordou em sua obra As Crônicas de Nárnia, o qual a Bíblia também alerta aos Cristãos: no início das dores muitos enganadores virão dizendo ser o Cristo e enganarão a muitos[6].

Quando porém completarem os mil anos, satanás será solto da sua prisão e sairá a seduzir as nações que há nos quatro cantos da terra, [...] a fim de reuni-las para a peleja. O numero dessas é como a areia do mar.[7]

Melkor depois de enganar, seduzir e corromper os elfos fugiu e reuniu também um exército de tamanho poderio que o próprio Melkor deixou que seu orgulho inflamasse achando que ninguém ousaria atacá-lo. Mas como está escrito em Apocalipse 20:9 e 10:

[...]desceu, porém, fogo dos céus e os consumiu. O diabo, sedutor deles, foi lançado para dentro do lago de fogo[...] pelos séculos dos séculos.

A queda de Melkor chegou. Acabou. "Seus pés foram decepados" e "foi então amarrado com a corrente"[8].
Tolkien, católico devoto, nesta obra mostrou não apenas a capacidade dele de imaginação e inteligência, mas também a fé dele na Palavra de Deus, a fé em um Deus superior, onipotente, onipresente e onisciente. Podemos ver perfeitamente nas partes que foram comparadas: um Deus onipotente, com o poder de criar, de derrotar a maldade existente no mundo. Um Deus onipresente, que esteve com os elfos na travessia do grande mar. Um Deus onisciente, que soube do perigo que seus primogênitos corriam e que sempre soube de tudo que se passava em Arda, e fez tudo em seu tempo, pois não podemos esquecer que como 1 Corintos 2:9 diz: humano algum sabe o que Deus tem preparado para aquele que o ama, os mortais homens (que mais tarde chegaram em Arda) e os primogênitos imortais elfos também não tinham esse conhecimento. Tolkien nos apresenta um livro inteligente, novas línguas, novas culturas, mitos, lendas. Um novo mundo.

[...]A arte foi comprovada. Deus é o Senhor, dos anjos, dos homens e dos elfos.[9]
 

   

REFERENCIAS: 
 TOLKIEN, J.R.R. O Silmarillion. São Paulo, Martins Fontes, 1999.
 BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Atualizada. São Paulo, Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
 LEWIS, C.S. As Crônicas de Nárnia. São Paulo, Martins Fontes, 2006.
 MAGALHÃES FILHO, Glauco. O Imaginário em As Crônicas de Nárnia. São Paulo, Editora Mundo Cristão, 2005.
<http://www.valinor.com.br> acessado em: 01/12/2007.
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Lord_Acton> acessado em: 01/12/2007.






[1]    LEWIS, C.S. As Crônicas de Nárnia Vol único - O sobrinho do mago, p. 56.
[2]    John Emerich Edward Dalberg-Acton (10/01/1834-19/07/1902), foi um historiador britânico famoso por esta frase. È conhecido como Lord Acton por ter sido o primeiro Barão de Acton.
[3]    Mateus 24:7
[4]    Ver Antigo Testamento, livro de Êxodo.
[5]    TOLKIEN, J.R.R. O Silmarillion, p. 70.
[6]    Ver Mateus 24:5
[7]    Apocalipse 20:7e8
[8]    TOLKIEN, J.R.R. O Silmarillion, p. 321.
[9]    TOLKIEN, J.R.R. The Tolkien reader, p. 88. (apud MAGALHÃES FILHO, Glauco, 2005, p. 109)

Chiacchierata

Depois de ver o blog de uma amiga (por sinal seus textos são maravilhosos), bateu uma nostalgia da época que eu tinha um, resolvi voltar. Lógico que naquele tempo o meu era uma porcaria, sem conteúdo e eu achava mais divertido brincar com a aparência dele do que postar alguma coisa útil. Pretendo fazer o caminho inverso, prometo!

Hoje vejo o blog como uma ferramenta muito boa para dissertar sobre coisas interessantes e com isso pretendo compartilhar ideias e pensamentos. Ainda não sei se irei seguir um tema específico, provavelmente não, mas o objetivo é trabalhar a escrita, o desenvolvimento e a legibilidade textual, afinal, hoje sou apenas um bebê engatinhando nesse assunto...

Sem dúvidas existem milhões de coisas  sobre o que falar: livros, filmes, estudos da tradução, a própria legibilidade textual, história, línguas e culturas, escritores, esportes, quem sabe até política, afinal, todos temos a necessidade de entender um pouco. Talvez com o tempo acabarei me enredando em um assunto o qual tenho mais intimidade. Claramente não sou um poço de sabedoria, longe disso, sou uma mísera bacharel em letras estrangeiras que gosta de ler e debater sobre um monte de coisas diferentes. 

Acredito que o nome do blog - Chiacchierata - já resume isso tudo muito bem, a palavra, em italiano, é sinônimo de conversação, colóquio, diálogo. É um bate-papo.  

Portanto, ficarei muito feliz em debater com todos, obviamente de maneira civilizada e respeitosa. Polêmicas sempre existirão, independente do assunto, mas mantendo  um nível descente de conversa não vejo problema nenhum em tê-las. Ainda mais nos tempos atuais, onde se você colocar uma vírgula em um desses temas espinhosos já será rotulado.

Bem, pensarei sobre algum tema bacana e em breve (assim espero) alguma coisa sai aqui... :)