Para encerrar o post anterior sobre as traduções de legendas, falarei um pouquinho sobre a legibilidade textual e darei alguns exemplos de legendas traduzidas, estes exemplos foram tirados de um trabalho que eu fiz. Futuramente retorno sobre este assunto, pois sem dúvidas tem muitos outros aspectos que podem ser analisados, como a diferença das traduções para dublagem e legendagem, bem como outros pontos de vista da legendagem.
Assim como em qualquer texto traduzido a legibilidade também é importante nas legendas e o trabalho do tradutor deve ser minucioso como em qualquer outro texto. Uma tradução mal feita pode colocar em risco a legibilidade e todo o trabalho do tradutor. A língua falada sendo mais espontânea e atingindo a linguística em sua totalidade, abrange diversos fatores: o regionalismo, o cultural, o contextual, o profissional e o natural[1], esses fatores muitas vezes podem dificultar a tradução por conta da diferença cultural e temporal entre a língua de origem e a língua de chegada.
Para alguns a tradução para legendagem é considera uma simples adaptação que mantém o significado principal do original, já que não é possível alcançar um nível alto de fidelidade do texto original[2], principalmente quando o filme é antigo e sua legendagem é feita muitos anos depois, essa diferença vem de encontro com o que diz Faveri (2008):
Da mesma maneira que o historiador deve buscar esse momento de legibilidade histórica, sintetizado na imagem, o tradutor é aquele que busca o momento da traduzibilidade de um texto. Como historiador, ele deve executar uma atualização. O que faz o tradutor é possibilitar uma sobrevida do original, já que o recria.
Além disso não pode-se esquecer de que a tradução obrigatoriamente deve estar dentro das normas, por exemplo, se a cultura da língua de origem tem o costume de falar longas frases em pouco tempo, e na língua escrita de chegada, as frases continuarem demasiado longas, a mesma não pode ser traduzida literalmente, ela terá de ser editada. Vê-se essa situação no exemplo, onde LO é a língua de origem (italiano), LT é a língua traduzida e por último a legenda finalizada. Estes exemplos foram tirados do filme Imputazione di omicidio per uno studente (1972), minuto 5’22’’:
LO
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-Il partito che ti ha detto che gli studenti hanno
la rogna?
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LT
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-O partido que disse a você que os estudantes tem
sarna?
|
Legenda
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-Foi o partido que disse que temos sarna?
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Neste exemplo tem-se a edição por conta das limitações tempo e espaço. A legenda manteve o sentido original da fala porém teve um corte considerável de carácteres.
A grande parte desses cortes somente são possíveis por conta das ferramentas que a legendagem possui: som e imagem. Essas ferramentas além de ajudar a tradução para a adaptação nas legendas, ajudam a elevar o nível de legibilidade no texto traduzido.
Quando um filme usa uma linguagem que já não é mais usada atualmente, com o auxílio da imagem, é mais fácil fazer uma adaptação linguística e manter um registro alto na tradução, pois a probabilidade do telespectador entender o que lê é muito mais alta do que se tivesse lendo um livro – sempre considerando que o telespectador já tenha um certo conhecimento cultural prévio. O fato dele ver uma pessoa com roupas de época falando “vosmecê”, o faz compreender mais rapidamente o que está acontecendo. Da mesma maneira uma cena em que um grupo de jovens, vestidos com determinadas roupas características, falando gírias, faz com que o telespectador rapidamente compreenda o que está acontecendo e contextualiza-o temporalmente.
Em Imputazione di omicidio per uno studente temos várias imagens que auxiliam as falas na contextualização temporal, já no início do filme temos uma indicação do contexto político no enredo, sendo um filme de 1972, época em que a Itália passava por tempos difíceis politicamente, todos as personagens caminham em confronto com a polícia com um pano vermelho amarrado ao corpo, cor símbolo do partido comunista; na sequência no minuto 20’ temos auxilio de outra ferramenta, o som, onde é entoada uma canção de liberdade; na imagem abaixo, temos uma sequência de cenas onde mostram também, vários símbolos do comunismo, o que auxilia o telespectador a contextualizar-se nos diálogos. Mesmo porque conforme a afirmativa de Bravo (2006)
na cinematografia a palavra está subordinada à imagem, pelo que, na tradução audiovisual, todo o trabalho do tradutor é mediatizado pela imagem e esta subordinação do elemento verbal ao icônico constitui um problema para o tradutor, o que explica que um dos axiomas da tradução audiovisual consista em que deve traduzir-se a partir do ecrã (não a partir do guião).
Retomando a questão cultural e temporal, no exemplo, minuto 86’03’’, tem-se uma expressão idiomática:
LO
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-Fabio, dammi retta, vattene...
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Legenda
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-Fabio, escute-me, vai embora...
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A expressão /dammi retta/ traduzida literalmente seria a equivalência de /dê-me linha reta/, a mesma foi traduzida como /escute-me/. Essa expressão é falada ainda nos dias de hoje na Itália. O exemplo mostra a necessidade do conhecimento cultural do tradutor, bem como temporal, visto que a língua está em constante e eterna mudança.
Outro ponto importante a exemplificar é a questão da faixa etária do filme que influencia na tradução, no exemplo, minuto 85’16’’:
LO
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-Un figlio di puttana
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Legenda
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-Um bastardo
|
Neste exemplo a palavra de baixo calão /figlio di puttana/, foi abrandada visto que a classificação do filme no Brasil é de 16 anos. Mesmo a classificação permitindo um palavreado com um nível mais baixo, foi escolhido não usar o mesmo nível, já que é a única vez que ocorre no filme. A escolha da tradução pela palavra /bastardo/ foi motivada pela carga de significado que ela carrega, apesar de não ser explícita o seu significado tem um peso tão grande quanto o palavrão em italiano.
Sabe-se também que muitos tradutores usam em seus textos, literários e poéticos, a clareza e a obscuridade, muitas vezes conseguem usar os dois, outras vezes optam por um ou outro, erram e acertam nas suas escolhas, todas as duas são extremamente necessárias, conforme o que o texto requer. Baldini (2004) fala que
è nostra convinzione che abbiamo bisogno tanto della chiarezza quanto dell’oscurità. Vi sono, infatti, ambiti linguistici in cui si può e si deve essere chiari ed altri in cui non si può essere chiari o non ambigui, in quanto è nell’oscurità e nella vaghezza che sta tutta la loro forza, la loro attrattiva e il loro fascino. [é da nossa convicção que temos a necessidade tanto da clareza quando da obscuridade. Têm, de fato, âmbitos linguísticos os quais podem-se e devem-se ser claros e outros os quais não podem ser claros ou não ambíguos, na obscuridade, no entanto, é na vagueza que está toda a sua foça, a sua atração e o seu fascínio.(tradução nossa)]
Analisando criticamente a função da legenda podemos afirmar que a mesma deve ser clara em todo o momento, visto que tem como função passar o significado daquilo que está sendo falado, mantendo-se o máximo possível fiel ao texto original. Mesmo se o tradutor deve usar de clareza com a legenda, não significa que o filme não pode ter obscuridade, já que as legendas não são as únicas formas de expressão do longa-metragem.
Os easter eggs e o aspecto gestual do filme são as partes obscuras, quando o telespectador não tem um conhecimento prévio sobre a história fica ainda mais intenso. Em Imputazione os easter eggs aparecem para auxiliar os cortes e falas na contextualização temporal e cultural, como no exemplo da imagem, onde aparecem ao fundo nas paredes do local a foice e o martelo, símbolos da bandeira comunista, e o personagem histórico Che Guevara, ícone do comunismo. Esses easter eggs servem para que o espectador saiba que o personagem encontra-se em uma sala comunista sem que tenha sido dito isso a ele.
Já os aspectos gestuais servem muitas vezes como argumentação na falta da linguagem falada. Em cenas como no minuto 89’12’’, sabemos que o Juiz Sola está pensativo, ponderando a respeito do que fazer com a confissão de assassinato do seu filho Fabio. Nessa hora nenhuma fala é necessária, a expressão facial, a trilha sonora, e obviamente o desenrolar do enredo argumentam por si só. Outro exemplo está no minuto 96’20’’ quando a arma do crime é jogada no rio Tevere, ali não é necessária nenhuma explicação das consequências que esse gesto terá e o que o motivou, o amor de um pai pelo filho e a tentativa de compreensão das causas desse filho.
No que se refere então as normas técnicas da legendagem, até que ponto elas influenciam nas escolhas lexicais e construções sintáticas do tradutor? Muitas vezes o tradutor é obrigado a fazer uma explicitação ou implicitação e principalmente omissão, – modalidades de tradução segundo Aubert (1998) – e isso acarreta críticas pesadas, inclusive de que o mesmo não fez uma tradução boa. Porém, as palavras de Calvino (2002) sobre traduções literárias também servem para as traduções de legendas, onde
la critica prende l’abitudine di stroncare una versione in due righe, senza rendersi conto di come sono stati risolti i passaggi più difficili e le caratteristiche dello stile, senza domandarsi se c’erano altre soluzioni e quali, allora è meglio non farne niente. [a crítica tem o hábito de restringir uma versão em duas linhas, sem dar-se conta de como foram resolvidos as passagens mais difíceis e as características do estilo, sem perguntar-se se tinham outras soluções e quais, então é melhor não fazer nada (tradução nossa)]
Portanto, as normas técnicas da legendagem dificultam sim o tradutor a manter uma alta legibilidade e uma sincronização perfeita, sem uma tradução literal. No entanto, em contrapartida, o tradutor conta com o auxílio da imagem e do som, o que muitas vezes faz com que tudo seja facilitado para a edição das legendas. Sem dúvidas é de extrema importância salientar a necessidade de que o tradutor tenha um alto nível de conhecimento, tanto da LO quanto da LT, para que ele saiba equilibrar os cortes e ajustes da legenda sem que tenha uma perda do alto nível de compreensão linguística e do significado principal do original.
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Filmografia:
Imputazione
di omicidio per uno studente. Direção: Mauro Bolognini.
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