segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Cortejamento: O Silmarillion x Bíblia

Olá!

Quem me conhece um pouquinho sabe bem o quanto aprecio as obras de Tolkien. Nesse último ano tive o prazer de conhecer outras obras não relacionadas ao imaginarium da Terra Média. Confesso que no início tinha um pouco de receio, mas logo fiquei maravilhada! Quem sabe comento sobre alguns aqui.

Alguns muitos anos atrás fiz um trabalho em uma disciplina de Literatura na faculdade. Neste trabalho tratei sobre uma das obras que mais aprecio e considero complexa. Fiz um breve cortejamento entre O Silmarillion de J.R.R. Tolkien e a Bíblia, sobretudo o Antigo Testamento, também citei C.S. Lewis. Neste cortejamento poderemos ver claramente, além da incrível imaginação, os princípios Cristãos do autor em suas obras que são aclamadas até os dias de hoje. Entre todas as obras de Tolkien, a meu ver, sua fé é mais clara nesta.

Quando falo breve, é breve mesmo! Peguei apenas a primeira parte do Silmarillion e fiz um belo resumão. Entretanto, espero que apreciem e sintam vontade de conhecer um pouco mais sobre este escritor fantástico.



Fingolfin vs Sauron


No princípio, criou Deus os céus e a terra
                                                                      Gênesis 1:1

Igualmente foi a criação de Arda, conhecida também como Terra Média.

Quem lê pela primeira vez O Silmarillion não deixa de ver a sua grande semelhança com a Bíblia, até mesmo quem nunca leu a Bíblia mas conhece um pouco do Cristianismo irá relacionar com a obra; aqui vemos um caso em que a vida do autor se entrelaça com sua obra. Tolkien, que foi criado com princípios cristãos, deixou a marca de sua fé da primeira à última página de O Silmarillion.
Ao falar de Tolkien, o pensamento logo se remete a sua grande criatividade e imaginação, filólogo, professor de Oxford, começou a escrever as obras, que no futuro tornariam sua marca registrada, quando servia ao exército inglês na primeira Guerra Mundial. Apesar do trabalho árduo Tolkien faleceu e não conseguiu terminar de escrever O Silmarillion, entre outras obras, o livro que conta o começo de tudo e de todos.
Assim como Tolkien, seu amigo pessoal C.S. Lewis deixou transparecer "descaradamente" o Cristianismo em suas obras, cito a mais famosa: As Crônicas de Nárnia. Nela podemos ver a semelhança com O Silmarillion no primeiro de sete livros (em ordem cronológica na saga) - O Sobrinho do mago - onde Lewis relata a criação do seu mundo, Nárnia. O criador é o leão Aslam, que da mesma forma como acontece com Arda, cria Nárnia através de canções:

No escuro, finalmente, alguma coisa começava a acontecer. Uma voz cantava.[...]O canto não tinha palavras. Nem chegava a ser um canto. De qualquer forma, era o mais belo som que ele já ouvira. Tão bonito que chegava a ser quase insuportável.[...]
Um momento antes, nada havia lá em cima, só a escuridão; num segundo, milhares e milhares de pontos de luz saltaram, estrelas isoladas, constelações, planetas, muito mais reluzentes e maiores que em nosso mundo.[1]

Muitas pessoas acreditam que Deus criou o mundo não simplesmente falando, mas sim com lindas melodias, cantando. Podemos ver que não só Lewis, mas Tolkien também talvez pensasse assim. Ilúvatar criou Arda através das músicas feitas pelos Ainurs para a glória de seu nome e inspiradas por ele. Os Ainurs seriam a equivalência dos Arcanjos do Cristianismo, que são de uma classe de anjos superiores. Entre estes Ainurs existia um com mais poderes que os outros: Melkor; o qual começou a semear em seu coração a vontade de ser superior ao seu Deus, a ter ambições e invejas, este indiscutivelmente seria a equivalência de Lúcifer. Igualmente como aconteceu com Melkor, ele caiu em desgraça e foi amaldiçoado levando consigo uma parte dos anjos. Mais tarde Melkor seria conhecido por outro nome: Morgoth, "o sinistro inimigo do mundo", da mesma maneira, Lúcifer não é chamado por seu antigo nome, mas com outro.
Como diz Lord Acton[2]: “o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Depois de Morgoth refugiar-se querendo "crescer" e aumentar seus poderes,  corrompendo-se cada dia mais, não seria estranho que Tolkien escrevendo durante os períodos de Guerras não visse isso ao seu redor, os "maiores" com seus corações corrompidos e se corrompendo a cada dia com sede de poder,  "nações que se levantam contra nações, reinos contra reinos"[3], os princípios das dores, tanto na Terra como em Arda.
Ilúvatar não queria ver seus primogênitos sofrerem, assim como qualquer pai não gostaria de ver seu filho sofrer, portanto Ilúvatar manda um dos Valar (Ainur que desceu para Arda) guiar seus filhos, os elfos, até a Terra Prometida: Valinor, as terras imortais. Essa parte da história encaixa-se perfeitamente com a história de Moisés, o qual tirou o povo do Egito, do sofrimento, e em certa parte da jornada a caminho da terra prometida tiveram que atravessar o Mar Vermelho com ajuda divina[4]. Os elfos tiveram uma longa caminhada precisando atravessar o grande mar para poder chegar no Oeste, nas terras eternas.
Assim como Tolkien relatou a ida dos elfos a Valinor, ao paraíso, também relatou, mais tarde, o exílio dos elfos, conhecidos então como Noldors, pelo fato da desobediência, a mesma muito falada na Bíblia, nos Evangelhos.  Lembremos então de Adão e Eva, que desobedeceram a Deus quando comeram do fruto proibido, com isso foram expulsos do paraíso, neste caso, o paraíso não é o Éden, mas Valinor. Também devemos lembrar o motivo da desobediência de Adão e Eva, que foram seduzidos pela serpente, pelo diabo, assim os elfos foram enganados por Morgoth, Melkor.
Tolkien não foi só "fiel" com o Antigo Testamento, mas também ao Novo Testamento, sobretudo ao livro de Apocalipse. Melkor é acorrentado na Prisão de Mandos, que situa-se em Valinor, onde é imposto o tempo de Três Eras, para então poder ter um novo julgamento; em Apocalipse 20:2 e 3, fala que satanás ficaria preso por mil anos e depois solto. Melkor, passado o tempo imposto a ele, humilhou-se e pediu perdão, então pergunta-se: como Tolkien foi "fiel"? Bem, um coração corrompido a tal ponto jamais arrepende-se com sinceridade, satanás é o pai da mentira, e Melkor não fica distante de ser também:

[...]Ele foi conduzido novamente diante dos tronos dos Valar. Contemplou então sua glória e sua bem-aventurança; e a inveja encheu seu coração. Viu os filhos de Ilúvatar sentados aos pés dos Poderosos, e o ódio o dominou. Observou a abundancia de pedras preciosas, e as cobiçou. Ocultou, porém, seus pensamentos e adiou sua vingança.[5]

Muitos foram seduzidos pela mentira, muitos são seduzidos e enganados pelas mentiras. Este também foi um tema que Lewis abordou em sua obra As Crônicas de Nárnia, o qual a Bíblia também alerta aos Cristãos: no início das dores muitos enganadores virão dizendo ser o Cristo e enganarão a muitos[6].

Quando porém completarem os mil anos, satanás será solto da sua prisão e sairá a seduzir as nações que há nos quatro cantos da terra, [...] a fim de reuni-las para a peleja. O numero dessas é como a areia do mar.[7]

Melkor depois de enganar, seduzir e corromper os elfos fugiu e reuniu também um exército de tamanho poderio que o próprio Melkor deixou que seu orgulho inflamasse achando que ninguém ousaria atacá-lo. Mas como está escrito em Apocalipse 20:9 e 10:

[...]desceu, porém, fogo dos céus e os consumiu. O diabo, sedutor deles, foi lançado para dentro do lago de fogo[...] pelos séculos dos séculos.

A queda de Melkor chegou. Acabou. "Seus pés foram decepados" e "foi então amarrado com a corrente"[8].
Tolkien, católico devoto, nesta obra mostrou não apenas a capacidade dele de imaginação e inteligência, mas também a fé dele na Palavra de Deus, a fé em um Deus superior, onipotente, onipresente e onisciente. Podemos ver perfeitamente nas partes que foram comparadas: um Deus onipotente, com o poder de criar, de derrotar a maldade existente no mundo. Um Deus onipresente, que esteve com os elfos na travessia do grande mar. Um Deus onisciente, que soube do perigo que seus primogênitos corriam e que sempre soube de tudo que se passava em Arda, e fez tudo em seu tempo, pois não podemos esquecer que como 1 Corintos 2:9 diz: humano algum sabe o que Deus tem preparado para aquele que o ama, os mortais homens (que mais tarde chegaram em Arda) e os primogênitos imortais elfos também não tinham esse conhecimento. Tolkien nos apresenta um livro inteligente, novas línguas, novas culturas, mitos, lendas. Um novo mundo.

[...]A arte foi comprovada. Deus é o Senhor, dos anjos, dos homens e dos elfos.[9]
 

   

REFERENCIAS: 
 TOLKIEN, J.R.R. O Silmarillion. São Paulo, Martins Fontes, 1999.
 BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Atualizada. São Paulo, Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
 LEWIS, C.S. As Crônicas de Nárnia. São Paulo, Martins Fontes, 2006.
 MAGALHÃES FILHO, Glauco. O Imaginário em As Crônicas de Nárnia. São Paulo, Editora Mundo Cristão, 2005.
<http://www.valinor.com.br> acessado em: 01/12/2007.
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Lord_Acton> acessado em: 01/12/2007.






[1]    LEWIS, C.S. As Crônicas de Nárnia Vol único - O sobrinho do mago, p. 56.
[2]    John Emerich Edward Dalberg-Acton (10/01/1834-19/07/1902), foi um historiador britânico famoso por esta frase. È conhecido como Lord Acton por ter sido o primeiro Barão de Acton.
[3]    Mateus 24:7
[4]    Ver Antigo Testamento, livro de Êxodo.
[5]    TOLKIEN, J.R.R. O Silmarillion, p. 70.
[6]    Ver Mateus 24:5
[7]    Apocalipse 20:7e8
[8]    TOLKIEN, J.R.R. O Silmarillion, p. 321.
[9]    TOLKIEN, J.R.R. The Tolkien reader, p. 88. (apud MAGALHÃES FILHO, Glauco, 2005, p. 109)

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